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Consultoria em biblioteca, literatura e leitura.

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Oficina apresenta peculiares conexões entre analfabetismo e livros

Postado em 12 DE julho DE 2021
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Ensinamentos e debates sobre as peculiares conexões entre o analfabetismo e os livros marcaram o início da oficina on-line "Analfabetos personagens da literatura: do estigma à vida", na manhã de 10 de julho. Com condução da professora Maurina Lima Silva, a atividade faz parte do projeto Literatura Brasileira no XXI, resultado de parceria da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo) com a SP Leituras. E vai até 31 deste mês, sempre aos sábados.

Maurina, que é licenciada em Letras pela Universidade do Estado da Bahia e mestra pela UNIFESP, começou a primeira aula falando de si, de sua infância e família, e de como surgiu a ideia de estudar a população analfabeta (confira alguns depoimentos registrados em seu trabalho). Para ela, sempre ficou muito claro que aqueles que não aprenderam os códigos da leitura têm muito a ensinar. Essa população, segundo demonstrou, desenvolve seus próprios mecanismos e estratégias para enfrentar a realidade e o dia a dia em um universo todo mapeado pelas letras e línguas. Maurina foi tutora no Programa de Desenvolvimento Acadêmico Abdias Nascimento, do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UNIFESP, orientando a elaboração de projetos de pessoas interessadas em ingressar na pós-graduação. No âmbito da pesquisa, estuda a história da educação e do analfabetismo no Brasil e suas representações literárias.


[caption id="attachment_66597" align="aligncenter" width="820"]Foto: Reprodução. Foto: Reprodução.[/caption]

Realidade e literatura

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), atualmente, são 11 milhões de analfabetos no Brasil. E a realidade dessa população - muitas vezes sem voz e sem vez, como ressalta Maurina - tem sido registrada em vários títulos da literatura nacional. "Vidas secas", de Graciliano Ramos, foi um dos primeiros livros citados. O analfabetismo, como a professora salientou, nem sempre foi um problema, mas começou a ser encarado assim quando passou a ser "coisa de pobre", no final do século XIX.

A escrita é um código, mas há muitos outros em nossa sociedade, como salientou. Maurina apresentou o texto "Aula de leitura", de Ricardo de Azevedo; a música "Béradêro", de Chico César; trechos de "Os analphabetos", de João Gumes; e de "Becos da memória", de Conceição Evaristo, entre outros. O curta "Vida Maria", vencedor de mais de 50 prêmios nacionais e internacionais, também causou reflexão e emoção.

Um trecho do jornal "A Penna", escrito por João Gumes (autor de "Os analphabetos", citado anteriormente), foi incluído na apresentação e gerou análise aprofundada sobre os diferentes momentos do analfabetismo (ontem e hoje).

[caption id="attachment_66611" align="aligncenter" width="514"]Foto: reprodução. Foto: Reprodução.[/caption]

Se a realidade produz literatura, a literatura também pode produzir realidade, afirma Maurina que acredita na fronteira fluida entre ambas. E, como exercício de escrita desse primeiro encontro, a professora propôs que os participantes criassem um texto que tratasse dos primeiros cadernos, de como cada um foi alfabetizado e das memórias desse momento mágico da compreensão do "estou lendo". Importante ressaltar que conteúdos desenvolvidos nas aulas podem ser publicados no site do Literatura Brasileira no XXI. Quer saber mais sobre o tema? "Menino de engenho", de José Lins do Rego; e "História inacabada do analfabetismo no Brasil", de Alceu Ferraro, são dicas deixadas também por Maurina.

[caption id="attachment_66619" align="aligncenter" width="3264"]Maurina Lima Silva. Foto: acervo pessoal. Maurina Lima Silva. Foto: acervo pessoal.[/caption]