Literatura epistolar em destaque no Encontro com Autores e Ideias na Biblioteca de São Paulo
Postado em 13 DE junho DE 2013
Luiz Ruffato esteve presente neste sábado (8/6) na Biblioteca de São Paulo para discutir a literatura epistolar no projeto Encontro com Autores e Ideias. No bate-papo, que teve a moderação da jornalista Mona Dorf, o autor mineiro falou sobre como é escrever romances em formato de cartas, relembrou a sua obra e comentou sobre a formação da memória coletiva e também leu trechos de livros de sua autoria. Ele flertou com o romance epistolar no livro De mim já nem se lembra (2007), em que conta por meio de cartas a história da sua família e cidade - Cataguases - e da transformação da sociedade brasileira na década de 70, em pleno regime autoritário.
O escritor contou que o romance nasceu de uma encomenda da editora Moderna, que pediu um livro que fosse escrito em primeira pessoa. A ideia uniu a um encontro casual - encontrou na casa de sua mãe em Minas Gerais - cartas escritas por seu irmão endereçadas a ela. Com esse material, ele montou um painel social, histórico e político da ditadura brasileira, do início do movimento por uma abertura democrática e também da organização da classe operária por melhores condições de trabalho, na Grande São Paulo da década de 70.
Ele se diverte com alguns causos de escritor: muitos leitores do livro confundem a história real de seu irmão com a inventada nas cartas do romance. No livro, por exemplo, seu irmão morre num acidente de carro. Na vida real, ele ainda está vivo. Assim, o romancista comentou sobre como é a construção da memória coletiva, que por vezes pode ser inventada. "O fato do livro ser narrado em primeira pessoa dá a impressão de que a história é verdadeira para o leitores. Muitas vezes a memória pode ser inventada", comentou.
O livro aborda um tema que é a marca do autor: a expansão da classe operária. Ruffato contou que quando estava estudando jornalismo na Universidade Federal de Juiz de Fora, teve o insight de que o povo trabalhador brasileiro - especialmente o urbano - não estava representado na literatura do Brasil. Foi o incentivo para escrever a sua obra mais conhecida - os cinco volumes de Inferno Provisório, em que retrata o operariado de Cataguases, as primeiras greves no ABC e narra a eleição de Lula, o primeiro presidente oriundo das classes menos favorecidas.
Ainda sobre o romance epistolar, Ruffato comentou sobre a transformação que a literatura vive com a introdução da tecnologia. Para o autor, o fato de pessoas trocarem cartas denota um carinho e um tempo - de escrever, de postar, de esperar a resposta. Agora com a instantaneidade das relações humanas, parte deste tempo se perdeu. Mas o e-mail e as redes sociais ainda contemplam a escrita, que exige uma reflexão. Ruffato relembra que houve um período em que as cartas foram trocadas pelo telefone e pela oralidade.
O autor também comemora o fato de voltar para uma biblioteca. Ele conta que seu primeiro livro foi emprestado na biblioteca de Cataguases aos 13 anos. "De lá para cá, nunca mais parei de ler. Acho que foi um incentivo fundamental para a minha formação", finaliza.
Este é o sétimo encontro do projeto, que começou no início do mês de março com Andrea del Fuego falando sobre miniconto; recebeu Humberto Werneck e Ivan Marques para falar sobre a crônica; Marçal Aquino sobre literatura e cinema; João Anzanello Carrascoza e Ivan Marques sobre conto; Luiz Bras (ex-Nelson de Oliveira) e Ivana Arruda Leite sobre literatura em blogues e redes sociais; e Annita Costa Malufe, Angelica Freitas e Ivan Marques sobre poesia.
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