“Fui habituado a encontrar histórias, não a inventar”
Postado em 23 DE julho DE 2013
O escritor Ruy Castro foi o convidado do Segundas Intenções deste sábado, 20 de julho, na Biblioteca de São Paulo. Entre uma história e outra, Castro revelou que é graduado em Sociologia, que só assiste a filmes em casa e produzidos nos anos 70 para trás e que, de 1989 até hoje, já publicou 46 livros. O bate-papo foi mediado pelo jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto.
Castro começou falando sobre seu livro mais recente, Morrer de Prazer – Crônicas da Vida Por Um Fio. “A Isa Pessôa, da Foz Editora, me procurou porque percebeu que havia um tema recorrente nas minhas crônicas para que as pessoas se joguem na vida. Que elas não tenham medo de perder nem de ganhar, que caiam na noite, que não se omitam… Ela pegou um viés que nem eu sabia que tinha”, falou. Nesta obra, Ruy Castro aborda sua forma de viver, a juventude nos anos 60, a paixão pelas mulheres, pelo cinema, pela música, o alcoolismo e como superou o problema.
O escritor falou também sobre como escolher um personagem e sobre o processo de pesquisa para escrever biografias. Em primeiro lugar, diz ele, é preciso ter afinidade com o tema. “Eu já tinha alguma familiaridade com o ambiente da Bossa Nova, conhecia alguns dos envolvidos desde os meus 20 anos e isso facilitou na hora de escrever Chega de Saudade, por exemplo. Não dá para aprender tudo do zero para fazer um livro desses, pois o tempo necessário pode inviabilizar o processo todo.”
Outra história curiosa aconteceu na época em que ele pesquisava sobre Carmen Miranda. Castro conta que foi procurado por uma senhora de 90 anos, moradora da Urca, bairro do Rio de Janeiro, que precisava muito falar com ele. Ela dizia ter detalhes sobre o casamento da cantora ocorrido em uma igrejinha ali perto. Castro tomou nota de tudo o que ela tinha para falar, sobre a roupa da noiva, sobre o padre, o sermão, a música, os convidados e, ao final, ele tinha um belo relato sobre o casamento não de Carmen Miranda, mas da irmã, Aurora.
“Se eu tivesse descartado essa conversa por saber que a Carmen não havia se casado no Brasil, teria perdido esse relato. Por isso é preciso estar preparado para conversar com as pessoas. As melhores entrevistas são com as que nunca foram ouvidas”, explicou.
Mesmo em sua obra ficcional, Castro procura ser rigoroso em relação aos dados documentais. “Oitenta por cento de Bilac vê estrelas é verídico. Todo o ambiente do Rio de Janeiro da Belle Époque, do bota-abaixo promovido pela prefeitura [o prefeito de então, Francisco Pereira Passos, determinou a demolição de grande parte dos cortiços da cidade em prol do saneamento e do embelezamento, dando ao Rio de Janeiro ares de cidade moderna e cosmopolita] e até algumas histórias dos personagens são reais. Fui habituado a encontrar histórias, não a inventar”, encerrou.
O Segundas Intenções acontece sempre no terceiro sábado do mês, no auditório da BSP. O próximo convidado será o escritor Xico Sá. Confira em breve mais informações no site da biblioteca.
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