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Bate-papo com Tatiana Salem Levy: literatura que fala sobre o indizível

Postado em 11 DE maio DE 2021
[caption id="attachment_65569" align="aligncenter" width="731"]Screen Shot 2021-05-11 at 14.12.58 “A minha ideia, como escritora, era falar margeando o estupro, era aludir, mostrar, mas deixar espaço para o leitor continuar", conta Tatiana durante o bate-papo com Manuel da Costa Pinto, no Segundas Intenções.[/caption]

O recém-lançado livro da escritora Tatiana Salem Levy, Vista chinesa, trata do indizível. A floresta da Tijuca, cartão postal do Rio de Janeiro, é a cena do estupro de sua melhor amiga. E entre o fato, ocorrido em 2014, e a literatura, várias camadas se sobrepuseram. É também sobre isso que Tatiana fala, em bate-papo conduzido pelo jornalista Manuel da Costa Pinto, para o programa Segundas Intenções.

Nessa época, o Rio estava em alta – era ano de Copa do Mundo e, logo depois, haveria as Olimpíadas. Mas o crime violento rasgou a paisagem exuberante e despertou em Tatiana o desejo de escrever. Outros fatos se sucederam e impactaram a autora: a investigação policial em busca do culpado e os repetidos constrangimentos vividos por sua amiga; a exposição The innocents, da fotógrafa Taryn Simon, com imagens de homens injustamente condenados; e a chegada da maternidade. Embora o livro ainda não tivesse sendo escrito, esses foram elementos constituintes de sua gênese.

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Ao fotografar homens condenados e, posteriormente, inocentados, enquanto aguardavam a execução da pena capital, a norte-americana Taryn Simon questiona o papel da fotografia nos sistemas judicial e de investigação criminal dos Estados Unidos.  Na foto Troy Webb  Cena do crime, The Pines, Virginia Beach, Virginia Cumpriu 7 anos de uma sentença de 47 anos por estupro, sequestro e roubo Ao fotografar homens condenados e, posteriormente, inocentados, enquanto aguardavam a execução da pena capital, a norte-americana Taryn Simon questiona o papel da fotografia nos sistemas judicial e de investigação criminal dos Estados Unidos. Na foto Troy Webb na cena do crime, em The Pines, Virginia Beach, Virginia. Ele cumpriu 7 anos de uma sentença de 47 anos por estupro, sequestro e roubo.[/caption]

Tatiana interrompeu a escrita do romance com a chegada da primeira gravidez e, com ela, a preocupação de que o tema tão pesado influenciasse negativamente em seu momento de vida. Em 2018, grávida novamente, desta vez de uma menina, surgiu a vontade visceral de fazer o livro. E, então, fez uma série de entrevistas em que a amiga contou o estupro como nunca havia relatado – nem à polícia, nem no divã. Foram muitos detalhes.

E, aí, entra a literatura. “A minha ideia, como escritora, era falar margeando o estupro, era aludir, mostrar, mas deixar espaço para o leitor continuar. Foi meu maior desafio: não posso não narrar esse estupro. E me dei conta de que não era sofrimento de 4 anos antes, mas que estava presente nela todos os dias”, conta Tatiana.

Usando como recurso literário uma carta escrita pela mãe aos filhos, a autora buscou as palavras certas para contar sobre esse indizível, sem deixar de fora da narrativa a força de vida dessa mulher, que consegue redescobrir o corpo, a maternidade, a sexualidade.

“A ficção tem muito a ver com a verdade. E o mais importante para mim é ser verdadeira quando escrevo. Não existe vida sem dor, mas também não existe vida sem alegria. Eu tento sempre me aproximar o máximo possível daquilo que eu quero dizer”, explica a autora.

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Tatiana Salem Levy é roteirista, contista, tradutora, ensaísta e autora de histórias infantis. Vive em Lisboa há 8 anos, cidade onde nasceu em 1979, quando sua família se exilou da ditadura militar brasileira, e atua como professora na Universidade Nova de Lisboa. Filha de um professor de filosofia e de uma jornalista, ambos judeus ateus, que consideravam os livros como a base primordial do diálogo, Tatiana cresceu vivenciando a literatura como parte de seu cotidiano. “Encontrei na literatura uma espécie de amizade e uma forma de complicar as perguntas”. Clarice Lispector e Virginia Woolf foram fundamentais na sua relação com a literatura, além de Samuel Rawet, autor que tematiza a questão do desenraizamento e das heranças culturais que não sejam brasileiras.

É também autora de A chave de casa, seu romance de estreia, pelo qual recebeu o Prêmio São Paulo de Literatura em 2008. Publicou, ainda, Dois rios, em 2011, e Paraíso, em 2014. Tem também dois livros dedicados ao público infantil, Curupira Pirapora (Prêmio Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, em 2013) e Tanto Mar (Prêmio Academia Brasileira de Letras, em 2014).

Veja aqui o bate-papo.