Histórias da vida

DOE PARA TRANSFORMAR

Acreditamos que as pessoas são o nosso bem mais valioso. Nelas se encontra o foco de nossas ações.
Trabalhamos para acolher e incluir a todos em espaços de excelência técnica e humana, onde a liberdade e a autonomia na busca do conhecimento, por meio da leitura, são estimuladas.
Nosso público, que é diversificado, se encontra diariamente nessas casas da palavra para acessar, sem barreiras, um universo de experiências criativas e inovadoras.
Nossas bibliotecas são vivas e acreditamos no poder transformador da leitura, da cultura e da educação!
Conheça a história de vida de alguns dos usuários de nossas bibliotecas, como porta de entrada para o nosso mundo transformador.
Saiba mais sobre os projetos da SP Leituras! Participe de nossa campanha e apoie a nossa causa.
#doeparatransformar


Campanha de doação 2019

Entrevistados


Jardel de Souza Carvalho

31 anos – Teresina – Piauí



Campanha de doação 2019

Jardel saiu do Piauí e veio para São Paulo em busca de tratamento para o vício com as drogas. Seu quadro agravou-se quando morou na Cracolândia por mais ou menos dois anos. Em situação de grave vulnerabilidade social, o piauiense alojou-se em um albergue no bairro da Mooca, Zona Leste de SP.
Por recomendação de um amigo, descobriu a Biblioteca de São Paulo, da qual se tornou sócio em 2015.
Inicialmente vinha caminhando a pé da Mooca, mas atualmente mora no albergue Zacchi Naki, próximo à biblioteca. Hoje está se tratando com o apoio de um projeto para redução de danos.
Segundo ele: “O que a biblioteca traz para mim é o meu tratamento. A biblioteca me puxava para eu diminuir o uso de drogas, ficava aqui, não se pode dormir, mas até então eu ficava num ambiente que me deixava mais tranquilo. A leitura quebra minha ansiedade, é por isso que eu venho”.
Jardel não perdeu de vista sua terra, e sua família; pensa em voltar.
“Podia ter um biblioteca desse modo lá no Piauí, porque eu vou voltar pra casa, né… Minha família está toda a minha espera. Agora eu não vou voltar pela dor, vou voltar pelo amor”.
Apesar de todo o sofrimento, suas dores e dificuldades, ele preservou sua sensibilidade:
“Se você me perguntar… mas e aí Jardel, você diz que morar na Cracolândia te tornou mais humano? Mas até então tem todo um contexto, eu fui vendo o que é o amor, o que é a droga. Eu estive envolvido todo tempo e minha cabeça foi abrindo… aí a biblioteca entra nisso daí”.
É interessante apontar que a biblioteca aparece para Jardel enquanto um valor adquirido:
“Chegando lá, eu vou poder contar como é uma biblioteca boa de verdade. Esse lugar vai ficar na minha memória, como todo um contexto, as pessoas também… Eu não tenho amizade com o pessoal que trabalha mas eu tenho um gostar, um carinho. É bem assim, é o que eu tenho pra falar.”

 


Marcílio Marques da Silva Mariano

45 anos – São Paulo – SP



Campanha de doação 2019

Nascido em São Paulo (capital), Marcílio foi criado em Ribeirão Preto por seu pai. Aos dezoito anos foi preso, cumprindo pena de vinte anos.
“Nesse tempo que fiquei privado, eu sempre fui envolvido com a área cultural, esportes e o lazer do pessoal. Quando eu saí, foi uma coisa natural procurar lugares de cultura.”
Ao sair em liberdade, retornou para Grande São Paulo na tentativa de reconstruir sua vida.
“Eu cheguei numa situação que até hoje é essa, sem condições familiares, sem condições sociais e dependo do governo, do bolsa família, abrigos e assistências governamentais.”
Marcílio sempre expressou a cultura como recurso fundamental para seu desenvolvimento. No presídio, começou a escrever um livro e, atualmente, mora no abrigo Isaac Nash, próximo à Biblioteca de São Paulo.
“Eu tô escrevendo ele faz 20 anos, fiz várias pesquisas depois que saí do presídio. Aqui na biblioteca, eu vim para buscar algumas informações, através de livros, pesquisas, num ambiente legal, familiar… O pessoal me deu um apoio técnico e indicações. O senhor Celso foi muito bacana comigo… A biblioteca é um conjunto da minha vida.”
Ao longo desse processo, Marcílio adquiriu um senso crítico e criou um projeto social:
“Fiz alguns testes com as minhas próprias ideias, vi que tinha uma manipulação em massa por detrás dos olhos da sociedade, que é invisível aos nossos olhos, porém, com contato direto com a nossa vida, mudando nossa trajetória… Lesando nossa forma de pensar, nossas músicas, nossas poesias, as nossas criações em termos de pensamento. Estamos sendo roubados. Percebi que não temos forças para lutar com uma articulação desse nível.”


Hellen Ferrarini

44 anos – Santana – SP



Campanha de doação 2019

Hellen cresceu em Santana, Zona Norte de São Paulo. Acompanhou o processo de transição do Carandiru para o atual Parque da Juventude, e foi no caminho de casa que conheceu a Biblioteca de São Paulo.
“Foi muito importante pra cá, principalmente pelo o que a gente vivia aqui, a gente tinha muito receio, a gente acabava evitando um pouco. A cultura é muito importante né, estava faltando um espaço desse pela região, foi muito importante para vila de Santana.”
O significado atribuído por ela vai além das atividades oferecidas na biblioteca, é também uma forma de sair de sua rotina:
“Aqui é uma terapia pra mim. Eu me desligo um pouco, em casa não é a mesma coisa, aqui tem um clima diferente. É algo que no Brasil tá faltando, novos espaços desse, né? Eu estava necessitando de uma válvula de escape do meu dia a dia e, aqui, eu encontro tudo o que eu preciso para fugir da minha realidade lá fora.”
Hellen gosta de ler livros sobre Filosofia e Psicologia. Acredita no poder da leitura como veículo da educação, usufrui e ocupa a biblioteca a fim de incentivar outras pessoas com o seu exemplo:
“Eu tô fazendo a minha parte, mostrando que eu, na minha classe, tô ocupando aqui também, eu acho um espaço necessário. Aqui incentiva você a viver, te dá a oportunidade, não é só um espaço que você vai ler um livro. Se não fosse um espaço desse, eu estaria numa depressão profunda. É um incentivo para viver, vai te mostrar caminhos, um leque de opções.”


Emília Ferreira

47 anos – Jaguaré – SP



Campanha de doação 2019

Emília tem 47 anos, é mãe, advogada e mora próximo à Biblioteca Parque Villa-Lobos. Descobriu o espaço por caminhar muito pela região.
“A biblioteca é um ponto crucial para leitura, estudo, até para uma certa calmaria. A biblioteca tem sido um grande valor para mim. Outra coisa que gosto muito, é o fato de ter um espaço bastante tranquilo, silencioso, para estudar, ler e até mesmo trabalhar. Isso tem sido muito interessante para mim porque atualmente trabalho na qualidade de autônoma, busco um espaço desse para trabalhar.”
Com um olhar diferenciado, questiona a possibilidade da extinção da biblioteca na “era digital” e afirma o valor do livro físico adquirido por ela:
“Os livros de fato são uma necessidade para o ser humano, a título de cultura, de conhecimento, não acredito que a internet tão somente possa substituir isso. A gente vê nos dias de hoje, os jovens muito dispersos e tudo se pesquisa através dos smartphones, é tudo muito vago. Aqui na biblioteca você tem acesso às obras literárias, o bibliotecário te conduz, te orienta… Isso faz toda a diferença. Internet tem aqui também, internet tem em todo lugar.”
Emília sente o potencial da biblioteca como um organismo vivo:
“Que o governo tenha um olhar para isso, não são só os livros, aqui tem uma agenda cultural. O diferencial dela é esse, trazer o corpo a corpo, trazer as pessoas, a visitação à biblioteca, um ambiente de estudo, de cultura. Já vi que tem teatro, exposição de arte, um acervo extremamente interessante. Acho que só o fato de você se deslocar da sua casa e fazer um passeio numa biblioteca… eu acho fantástico.”


Antônia Reis

63 anos – Camacã – BA

Maria Helena Reis

60 anos – Camacã – BA

Leonardo

20 anos – Camacã – BA



Campanha de doação 2019

Antônia e Maria Helena são irmãs, nasceram na Bahia, em Camacã. Vieram para São Paulo há quarenta anos. Antônia, que tem uma filha que não pode criar, diz que se sente mais paulista do que baiana. Maria Helena tem um filho de 20 anos, o Leonardo, que é autista. Elas se dividem para cuidar do menino e, juntas, levar a vida.
“Faz mais de quarenta anos que eu moro aqui em São Paulo. Quando eu tinha dezoito anos meu pai faleceu, aí tipo assim, a família desmoronou. Todo mundo sumiu de casa pra trabalhar fora. Teve uma família que me trouxe pra cá, para trabalhar. Trabalhei sozinha mesmo, depois fui buscar minha irmã.” (Maria Helena)
“A minha história é longa… Nossa vida foi assim, uma trajetória. A vida dela é muito mais complicada que a minha, a minha é só um pouquinho. Quando vim para São Paulo eu tinha vinte e dois. É triste né, você ter uma filha e dar para uma família. Ela mora com outra família, é uma história meia… ela tem trinta e dois anos. A gente fala, foi em 2004, eu consegui conversar com ela, que ela foi lá no meu serviço, não sabia que eu trabalhava em casa de família, né? A gente fica com umas certas coisas por dentro… mas tudo bem.” (Antônia)
A vida sempre foi carregada de muita luta para as duas irmãs, contudo sempre se mantiveram unidas. A maior parte do tempo trabalharam como domésticas, sem condições de terem acesso à educação.
“Nossa vida foi assim, difícil. Comecei a trabalhar desde os quatorze anos. Aí sempre a gente com pouco estudo. Só fiz o primeiro grau incompleto, mas aí foi no tempo que meu sobrinho nasceu e cancelei a matrícula. É que nas casas de família que a gente trabalhava, as mulheres eram muitos exigentes… elas não querem que a gente aprenda as coisas, querem só pra elas. Eu dormia no trabalho e, a gente era muito humilhada, tinha muita humilhação. Trabalhei em tantas casas… casa de rico, casa de pobre, tudo o que era coisa.” (Antônia)
Atualmente moram próximo à Biblioteca Parque Villa-Lobos. Faz cinco meses que começaram a frequentar o espaço. Inicialmente, para trazer o Leonardo.
“A gente trouxe ele para cá, primeiro ele fez a carteirinha, depois começou a mexer no computador, daí eu fiz também carteirinha e tô na informática. Começamos a vir, gostar.
Tô começando a usar a internet, ainda não tô muito boa… Passei um e-mail pra minha filha lá, consegui as fotos dela. Aqui é muito legal, os funcionários, seguranças tratam a gente bem… meus professores. Tô gostando de olhar os livros, ver receita de comida, livro de pássaro, de árvore.” (Antônia)
“De dois em dois dias a gente vem. Ele gosta de vir todos os dias, eu fico cansada. É a semana inteirinha para vir. Eu gosto, pego livro, vou ler livro. Ele que manda na gente, praticamente. Quando ele quer sair, tem que sair. Eu gosto de ler tudo, como diz o Léo.
Estudei pouco porque não deu tempo de terminar meus estudos. Aprendi muito nessa vida sozinha” (Maria Helena)
Maria Helena está aguardando a irmã terminar o curso de informática para poder começar.
Leonardo gosta de mexer no computador.
“Eu vou deixar ela terminar o dela para eu poder fazer o meu. A gente reveza porque ele não pode ficar só. Ele descobre tudo, ele é muito inteligente, autista mas muito inteligente.
Ele mudou, ficou mais calmo, ele toma remédio de manhã e de noite. Quando ele vem pra cá, ele fica uma maravilha, fica bem, feliz.” (Maria Helena)


Jorge Arthur Arakilian

64 anos – São Paulo – SP



Campanha de doação 2019

Jorge é nascido em São Paulo e morador há quarenta e sete anos da região. Acompanhou a transformação do espaço onde, hoje, existe a Biblioteca Parque Villa-Lobos. Em 2008, Jorge perdeu a visão. Após refazer sua vida nessa condição, tornou-se massoterapeuta.
“Desde 2014, sou sócio. Desde o começo. Aqui é um evento muito legal que gosto de frequentar. A gente pode desenvolver, se relacionar, é muito bom. Eu uso os equipamentos da acessibilidade, que é o computador… O conhecimento dos funcionários que transformam os livros em áudio. Os livros estão aí para as pessoas pegarem, começarem a ler, refletir e traduzir no dia a dia.”
Acostumado com o trajeto, ele vem e vai sozinho para casa:
“Você sabe onde estão os buracos, a faixa de pedestre, o perigo… Eu vou pelo lado de fora e anulei o lado de dentro. Por dentro, só quando estiver acompanhado. Antigamente eu vinha todo dia, depois que voltei a trabalhar não dava porque demora duas, três, quatro horas e, quando fica de noite, eu tenho baixa visão. Depois das dezessete horas fica tudo zero zero para mim.”
Apesar de todos os desafios, Jorge consegue perceber algumas vantagens na perda da visão:
” Ela quando vem, não fala: olha, eu vou passar aí amanhã e você se prepara. Ela não faz isso. Ela nao quer saber, se você tem, se você não tem… nem a sua idade. Ela vem, te pega e te derruba. Quando eu perdi a visão, eu comecei tudo do zero. Andar, pensar, trabalhar, me relacionar… No começo você fica revoltado, mas depois vai percebendo que existem certos tipos de vantagens. Quando você vê, passa sem perceber. Uma delas, por exemplo, posso falar pra você? A mentira. Tem horas que dá para perceber a mentira descaradamente. Os olhos conseguem esconder esse tipo de coisa porque, dentro da linguagem, os olhos são o primeiro pecado, desvio, distúrbio. O primeiro a iludir a gente.”
Jorge tem apreço pelas coisas simples. Com a experiência na biblioteca, descobriu coisas novas que ampliam sua capacidade. Ele diz que é um espaço revolucionário:
“Eu gostaria de voltar a trabalhar. Gosto de trabalhar, não gosto de ficar em casa. Quando você é deficiente visual, a biblioteca parece que não, mas é um agente transformador. Ela é revolucionária… Antes de eu estar aqui, eu não sabia o que era NVDA, Talkback, a Pointer… Não sabia nada disso e, através do celular, os funcionários foram me ensinando… Eu não tenho domínio total, mas o que eu tenho, é um avanço dentro da liberdade que você tem.”